e de repente abandona-se o refúgio de anos.
as paredes, essas companheiras das noites sombrias, das manhãs agrestes e frias, dos dias vagarosos como o lento ulular das folhas no outono, despedem-se de quem parte com a emoção de quem sempre soube ter ali não uma alma gémea para sempre mas antes uma companhia para parte da jornada.
ficam as vistas para o mar ao longe, para os campos do outro lado da encosta e para o sol a mergulhar no horizonte quando a lua aparecia trémula por cima do monte!
desceram-se as escadas uma última vez, cada passo lembrando todos os passos anteriores, em noites ainda manhãs ou manhãs ainda madrugadas ou em dias confusos de horas desfasadas.
fica a cozinha de conversas sem fim... de pratos preparados com sabor oregãos, salsa, alecrim... com cogumelos vermelhos prontos a serem tombados e um pato amarelo à janela deitado...
ficam as fundações alicerçadas em conversas sem nexo mas repletas de significados... por entre batidos de sensações puras de naturalidade!
esvaziadas de todos os adereços, de coisas tão importantes de tão baixo preço, de heranças de outros tempos e de outros lugares, de pequenas conchas e etéreos colares!!!
um mundo esvaiu-se por aquela porta, aberta vezes sem conta deixando entrar saudades, desejos, anseios ou simplesmente para sair sem rumo, sem destino...
paredes despidas das memórias, embrulhadas e enpacotadas para terras longínquas... memórias sem raízes sem ser naquele espaço, onde tudo foi triste, onde tudo foi belo, onde tudo se tornou difuso e vago mas ao mesmo tempo, tão eterno, tão meu...